Moro
numa cidade caracterizada pelo caos do trânsito, pelo calor que julgam infernal
e que dizem desapropriar-se da cultura em prol do desenvolvimento econômico.
Ninguém gosta de estar aqui, a não ser os próprios habitantes. As pessoas
afirmam que detestam estar aqui, odeiam enfrentar o trânsito carregado do
centro e não veem a hora de voltar para casa. Tá certo.
O
que eu vejo, no entanto, é uma cidade que, unindo histórias de todas as outras circunvizinhas,
construiu, em cem anos, um império de cultura, economia, política e influência
em todo o Ceará, Nordeste, Brasil e do raio que o partam. É como um caldeirão
que, sem distinção, acolhe o primeiro, segundo, terceiro e o último que
passarem pela porta de entrada. Sair daqui é difícil, meus caros. Nós
respiramos um ar mais poluído que as demais cidades caririenses, mas
transpiramos suor de gente batalhadora, assim como todos vocês. Temos os mesmos
defeitos e qualidades que vocês, a diferença é a intensidade que se tem em cada
caso.
Somos
cidade importante, que triunfa entre as principais do país, que não para de
crescer e realizar sonhos. Somos a mesma que destrói sobre a tristeza, derrota
e injustiça de todas as pessoas que, de um jeito ou de outro, ajudam a
construir o que se tem por supercidade. Somos uma tribo de desenvolvimento
social, econômico e político. Passos largos em uns e curtos em outros, mas
somos o que somos. Temos contradição em ser um dos menores em território na
região, mas somos o segundo maior espaço urbano do Ceará. Temos um Produto
Interno Bruto (PIB) de orgulho, mas temos uma das maiores desigualdades sociais
do estado.
Construção
civil e empregabilidade em alta, carros luxuosos nas ruas e uma população
aproveitando a boa fase da economia nacional, que repercute tão bem por aqui. A
cidade que possui o maior número de pessoas ligadas à cultura no Brasil. É um
misto de tudo de bom e de ruim. Pra ser sincero, tentar fugir do estereótipo da
religião pregada pelo patriarca da cidade é negar a si mesmo. Então, vamos lá.
Temos
níveis de insegurança tão altos quanto grandes centros urbanos espalhados pela
nação, mas, apesar de todos os lados podres daqui, atraímos mais de dois
milhões de pessoas por ano que buscam, no solo da terra santa Juazeiro do
Norte, a proteção fiel e a busca de todas as manifestações religiosas que aqui
existem. Carregamos o título de Capital da Fé e o marco histórico de sermos um
dos maiores centros religiosos do Ocidente. Nem de longe quero mudar sua
opinião sobre esta cidade, mas também não quero deixar de falar do quanto é bom
morar numa das cidades mais caóticas e acolhedoras desse planeta.