domingo, 28 de outubro de 2012

Inquietação

Capa do livro A Arte de Produzir Efeito Sem Causa
(Reprodução)
Bruna: “Sua mão é gelada”.
Junior: “Quando eu era vivo ela era quente”.
Sim, Junior está morto dentro de si mesmo. A depressão tem disso, e Junior tem motivo de sobra para não pensar em viver novamente. O problema está no passado do protagonista. A infância se estende à fase adulta e o estopim da crise vem com a traição da ex-mulher, Márcia, com o amigo adolescente do filho.
De volta à casa do pai, Sênior/Seu Zé, Junior conhece a inquilina Bruna, estudante de artes. A partir daí, passa a vigiar a moça como quando o pai faz, enquanto a moça troca de roupa, através de um furinho no fundo armário. Junior passa a delirar um amor platônico ao passo que se atormenta com as encomendas que recebe de anônimos. Sem trabalho, ocupação ou perspectivas, Junior passa a ocupar-se em decifrar os mistérios que lhe chegam pelos correios.
Movidos pelo interesse comum em mistérios e maconha, Bruna e Junior se aproximam e criam um vínculo de cumplicidade em prol de buscarem uma solução. A cumplicidade sobrevive até mesmo à tentativa de estupro e roubo de parte das economias da estudante. Assim como quando trabalhava na loja de auto-peças, Junior passa a tratar a vida em códigos. Uma sequência de números e uma peça correspondente a uma ação futura.
A obsessão segue. A depressão também. O fracasso continua. Tormentas e terror aparecem e mudam a rotina de uma casa comum. Cigarro, maconha e bebida alcóolica. O final, entretanto, é um toque de mestre do autor, Lourenço Mutarelli.
SANDY – BRUNA
Diferente das mocinhas corajosas e românticas já interpretadas no filme AcQuária (2004) e no seriado As Brasileiras (2012), Sandy teve um grande desafio em interpretar a estudante de artes, Bruna. Maconha, misticismo e determinação. Bruna é, de fato, o papel mais importante da carreira de atriz da cantora. O talento é o que dirá se ela soube ou não aproveitar a oportunidade. Expectativa de fã à parte, Sandy parece ter maturidade suficiente para aproveitar as chances que lhe são oferecidas.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

JdoN


Moro numa cidade caracterizada pelo caos do trânsito, pelo calor que julgam infernal e que dizem desapropriar-se da cultura em prol do desenvolvimento econômico. Ninguém gosta de estar aqui, a não ser os próprios habitantes. As pessoas afirmam que detestam estar aqui, odeiam enfrentar o trânsito carregado do centro e não veem a hora de voltar para casa. Tá certo.

O que eu vejo, no entanto, é uma cidade que, unindo histórias de todas as outras circunvizinhas, construiu, em cem anos, um império de cultura, economia, política e influência em todo o Ceará, Nordeste, Brasil e do raio que o partam. É como um caldeirão que, sem distinção, acolhe o primeiro, segundo, terceiro e o último que passarem pela porta de entrada. Sair daqui é difícil, meus caros. Nós respiramos um ar mais poluído que as demais cidades caririenses, mas transpiramos suor de gente batalhadora, assim como todos vocês. Temos os mesmos defeitos e qualidades que vocês, a diferença é a intensidade que se tem em cada caso.

Somos cidade importante, que triunfa entre as principais do país, que não para de crescer e realizar sonhos. Somos a mesma que destrói sobre a tristeza, derrota e injustiça de todas as pessoas que, de um jeito ou de outro, ajudam a construir o que se tem por supercidade. Somos uma tribo de desenvolvimento social, econômico e político. Passos largos em uns e curtos em outros, mas somos o que somos. Temos contradição em ser um dos menores em território na região, mas somos o segundo maior espaço urbano do Ceará. Temos um Produto Interno Bruto (PIB) de orgulho, mas temos uma das maiores desigualdades sociais do estado.

Construção civil e empregabilidade em alta, carros luxuosos nas ruas e uma população aproveitando a boa fase da economia nacional, que repercute tão bem por aqui. A cidade que possui o maior número de pessoas ligadas à cultura no Brasil. É um misto de tudo de bom e de ruim. Pra ser sincero, tentar fugir do estereótipo da religião pregada pelo patriarca da cidade é negar a si mesmo. Então, vamos lá.

Temos níveis de insegurança tão altos quanto grandes centros urbanos espalhados pela nação, mas, apesar de todos os lados podres daqui, atraímos mais de dois milhões de pessoas por ano que buscam, no solo da terra santa Juazeiro do Norte, a proteção fiel e a busca de todas as manifestações religiosas que aqui existem. Carregamos o título de Capital da Fé e o marco histórico de sermos um dos maiores centros religiosos do Ocidente. Nem de longe quero mudar sua opinião sobre esta cidade, mas também não quero deixar de falar do quanto é bom morar numa das cidades mais caóticas e acolhedoras desse planeta.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Todos os carnavais têm seu fim

Muito além da Quarta-feira de Cinzas, mas bem perto da triste melancolia. Talvez, o que me resta é a introspecção. Aquela coisa cubista, pré-definida pelo ritmo moderno, tatuada como parada obrigatória em um dos cantos deixados para viver. Talvez assim, numa poesia sem rima ou prosa sem norma, letras e formas que contornam todo o caminho – seja longo, seja curto.

Sem sinal, sem moral, um torpor de ilusões e desapontamentos alegres, daqueles que ensinam que a decepção ainda é capaz de educar e trazer proveito para nosso tic-tac ­sobre-humano. Independe da trilha e dos trilhos, mas está diretamente ligado aos trilhões e turbilhões proporcionados pelo único motivo.  Quem quis que fosse assim? Você?

Mas, e eu? E nós dois? ... Quem disse que eu quero ser um vencedor? Ou levar a vida devagar? E, talvez, um passo por vez. Nomes vêm, nomes vão, e eu pensava que seria incapaz de sair do mesmo lugar. Agora, por mais clichê que seja, dou passagem a alguém que, com ou sem manual, sabe aproveitar o que se chama qualquer coisa que seja.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Desprazer

Tá, vamos começar com o drama de hoje. Bom, pelo menos essa é a imagem que têm de mim e que eu não faço o menor esforço em apaga-la. Primeiro, eu juro que, aqui, digitando cada letra desse texto ínfimo, tem uma pessoa de carne e osso, daquelas que comem, dormem e sentem dor. Muita dor. Mas não é daquele tipo que médicos conseguem curar. Antes fosse.
A intenção deste blog sempre foi fazer textos autobiográficos, embora eu tenha receio em dedicar tanto tempo e espaço falando de coisas tão pessoais para pessoas que eu possa conhecer ou não. Enfim, vamos seguindo com o blá-blá-blá de hoje, que eu não quero ficar tanto tempo preso no mesmo incômodo.
E por falar em incômodo, é exatamente assim que eu me sinto depois de tanta entrega e doação, e, como recompensa, receber críticas de insatisfação e ser posto à prova por tantas vezes. É como ser ninguém e ser alguém ao mesmo tempo. Tanto faz.
Por hora, uma raiva/ciúme/revolta/insegurança/medo/qualquer-coisa... Esse poço de coisas frias e desastrosas sou eu. E que se dane o mundo, porque eu não vou mais guardar tanto incômodo dentro de mim, enquanto o máximo que recebo é um sonoro “aprenda a conviver com isso”.
De verdade, não queria postar essas coisas no dia de hoje – nem nunca, principalmente. O motivo é bem simples, mas não diz respeito a nenhum de vocês, e aí entra a parte escondida do meu ser. É tudo tão poético, tão romântico, tão dramático, mas tudo tão desastroso.
Hoje é dia para se comemorar, celebrar uma data importante do meu calendário pessoal. Mas desde a madrugada que o máximo que eu consigo fazer é pensar em bobagens e desacreditar em mim mesmo. Sim, em mim mesmo. Vejam só... Não. Não vejam nada.
É como uma sensação ruim, sabe? Você se enxerga maior, mas sabe que tá completamente arruinado por dentro. Não sei se é comum a todos, mas esse é o meu sintoma de fracasso, ou de algo muito parecido com ele. Mas, sabe qual o lado positivo de tudo isso? Sim! Eu tenho um lado positivo em ser fracassado: não precisar nem fazer questão de esconder mais nada. Acabou todo o drama interior e aquela história de “não me incomode com você mesmo”.
Uau! Falou o determinado. Quem dera, amigos. Aqui só fala alguém que pensa estar determinado, que pensa poder superar seus próprios defeitos. Afinal, os defeitos foram feitos para serem superados ou para servirem como prova de amor de quem gosta de você?
Bom, além de ter carne e osso, aqui vos falou um mané. Um completo palhaço e protagonista de uma novela mexicana da vida real.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Entrega

“Que bom que superamos mais uma crise, não é?”. Essa frase me pagou de surpresa. Eu estava completamente desarmado. Talvez minha reação não tenha sido a esperada, mas eu posso garantir que fiquei radiante com a notícia. Só conseguia sorrir e repetir milhões de vezes aquela frase em minha mente. Foi assim até conseguir pegar no sono naquela noite.
           
Era tudo o que eu mais queria ouvir desde três semanas atrás, quando finalmente pensava estar tudo bem. “Não estava tudo bem, mas agora estamos ótimos! E isso eu posso garantir!”. Pronto. Podia o tempo correr, os dias passarem... Podia acontecer tudo, mas eu só conseguia pensar no fantástico que era ouvir o que eu tanto queria. O verdadeiro remédio e curativo para tantas dores finalmente chegou.

Desde então, tudo foi mais azul, teve mais cor. Os pássaros faziam verdadeiras sinfonias e coros com cânticos agraciados de tanta beleza e sonoridade expressiva. As buzinas dos carros eram como orquestras que denunciavam a alegria presente, que pairava sob meus pensamentos. Pode parecer bobo, infantil e romance adolescente. Pode ser. E por que não?
            
Diversos obstáculos, pedras no caminho e no sapato, trechos de trilhas tortuosos, e infinitas adversidades para enfrentar. Mas, aqui estamos nós, com bateria recarregada, sorriso no rosto e amor no peito, dispostos a enfrentar tudo o que houver nesse mundo pelo outro, seguir olhando apenas para o horizonte. Seguir de mãos dadas.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Forma e conteúdo

É bem diferente do que estamos acostumados a ver. A gente se posicionar bem em frente; coluna ereta, olhos bem abertos, pés firmes no chão, e podemos enxergar não apenas um reflexo, mas toda aquela ‘parafernalha’ invisível que habita nosso interior. Damos o nome de sentimento às diversas sensações que proporcionam a formação exterior da nossa imagem atual.
            Agora, preste [bem] atenção! Um espelho que reflete tudo isso, além de sensacional é primordial para alguns dos momentos mais difíceis de nossa vida. Buscamos respostas naquilo que está longe e nos parece inalcançável, apressamos pensamentos e forçamos uma solução rápida, pronta! Tolice.
            E aqui estamos nós dois. Lado a lado, frente a frente com nós mesmos. Eu não te vejo no espelho nem você me vê, mas descrevemos um ao outro tudo o que podemos enxergar. As dúvidas se somam e assombram. As suas às minhas. Tudo parecia bem do jeito que estava e nosso Katrina de emoções veio para fazermos refletir. Os riscos, a melancolia, a saudade, a expectativa e os desejos. Tudo num só recipiente.
            Frente a frente, de um para o outro, as lágrimas que correm, os olhos que brilham e a noite que cai. Cenas de um filme perfeito, com final infeliz. E ali estávamos nós, apressando e atropelando tudo.
Não!
Melhor parar para pensar. Tudo valeu a pena e pode seguir assim.
Para que a pressa e desespero? Dentro de nós, ainda que disforme, está o nosso melhor reflexo. Está a resposta para cada pergunta. Estamos nós mesmos, dispostos a enfrentar cada passo, aceitando cada consequência. Acima de tudo, ali estamos nós, acreditando num futuro bom, recheado de boas surpresas e um amor para nos acompanhar.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Desabafo

Uma maneira fantástica de superar as coisas. Fazê-las primordiais e descartáveis, numa primazia singular. Tudo parece como sempre foi, não vejo problema em sê-lo. E talvez aí esteja o problema. Mas a forma de descartar... essa, sim, me parece estranha.

Representar um sentimento nobre, mas que não corresponde a nossa verdade, é fazer-me sentir esquecido e ignorado. Ainda que te seja fácil, eu não consigo esquecer tantos milésimos em que tínhamos que ser outros e agirmos tão diferente. Tamanha despreocupação chega a me tirar e a forçar falsas expectativas, e até mesmo sofrer com antecedência futuras possíveis decepções.

            Ainda assim, nessa crise, nesse inferno astral, é como se uma parede de vidro impedisse o desejo e a verdadeira vontade. É como se não houvesse resposta. Nada mais que atípico. Nada mais que estranho. Nada mais do que o que eu sinto.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Janeiro

,talvez pareça como Outubro, quando tudo enegrece para mim. Ainda que tenha validade, as marcas que carregarei ao longo dos tempos sinalizarão com maestria a dor e a estranheza de se ter e não possuir. E mesmo que digam que o tempo cure e apague as feridas, eu sei o quanto o “senhor curandeiro” está em falta comigo.

Sorrir sem motivo, gargalhar sem motivo, suspirar sem motivo. Poucas horas e tanta falta. Fantasmas que assombram e se engrandecem nas suas palavras de insegurança insistem em permear a áurea do que se tem por nós.

Como fingir não existir uma coisa tão real, tão presente e ascendente? Ainda que caprichoso, é como se uma borracha tentasse desmoronar todas as linhas que tracejam a nossa história, que completam a nossa ponte e desenham as nossas formas.

Agora o relógio já marca 22h30. As primeiras horas de uma quarta-feira atípica, desde pouco mais de nove meses atrás. Nunca vivi tanta estranheza e anormalidade. Nunca imaginei vive-la...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Tradução

Maldito sentimento dos fracos! Tudo vira decepção. Tudo transforma em desânimo. Com tanto tempo de prática, eu deveria estar acostumado. Mas o problema é que não depende completamente de mim. Quando penso que estou evoluindo, a distância, o desinteresse e o desapego mostram que nem tudo é como a gente planeja.

E aí me vem a saudade dos tempos difíceis, de quando tudo me levava ao mesmo lugar: os mesmos braços. Era tudo tão calmo e pacificador. Me vem a saudade das sensações de fortaleza e toda aquela rima de “eu estarei contigo”.

Desvanece. Desaparece. Desarma. Des-alguma-coisa. Disforme. Dito. Dividido. Di-alguma-coisa. E se ao menos houvesse certeza. Se ao menos demonstrasse certeza e bem querer.

Expor tanta coisa em poucas linhas, e ainda assim... Ainda assim.