quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Com bordas de ouro


Como julgá-los pelo crime que cometeram. Se até agora ninguém o fez, eu é que não me meto nessa confusão. Perdoe-me por isso. Mas não posso. Perdoe-me pelas poucas e simples palavras, mas garanto que elas são de coração. Vêm lá do fundo, do fundo da minha caixinha de veludo vermelho. Perdoe-me, mas não posso.
Vamos nos ater a nós dois, à nossa realidade, ao nosso relacionamento. Vamos esquecer que o mundo lá fora pira, enlouquece e se desespera com o caos. Lembra-se do nosso primeiro beijo? Do nosso primeiro “eu te amo”?
Ainda assim, sinto-me culpado pela simplicidade. Quisera eu poder, em palavras mais rebuscadas, narrar e detalhar a força do sentimento que sinto por você. Não posso. A culpa não é minha, é deles. Não posso abrilhantar este texto com palavras complicadas que facilitam o entendimento de nós dois. Perdoe-me, mas não é culpa minha.
Veja o céu. Veja como ele sorri para nós dois. É fácil entender, amor. Veja as nuvens deslizando calmamente pela imensidão dos nossos dias e pela infinidade de nós dois. Veja os pássaros que voam, levando e trazendo as loucuras, os devaneios e nossas emoções.
Agora, sem pressa, veja-se no espelho. És o reflexo do meu amor, do meu mais nobre e sincero sentimento. Veja. Admire-se.
Desculpe-me, amor, se os poetas roubaram-me as palavras mais lindas. A culpa não é minha, nunca foi. Apesar deste crime, a simplicidade do “nós líricos” traduz e assemelha-se à realidade. Eles não têm recompensa, mas nós... ah, amor! Nós temos a melhor de todas. De que importa as palavras rebuscadas que eles roubaram de mim, se o que nos interessa são nossas experiências e nossos sentimentos aqui assinalados. Quem precisa de tudo isso, se já temos um ao outro?
Nenhuma frase, simples ou rebuscada, tem mais verdade que o nosso, e apenas nosso, “eu te amo”.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Canção

Embala, encanta, emana. É sentimento à flor da pele e sobre letras e partituras cantadas. São notas musicais dos mais variados tons que narram a nossa história. São elas, tão simples, sozinhas, que cantam os nossos fatos e revelam nossas experiências.
Pare e ouça a leveza dissipada. Recolha as formas, o conteúdo, os fragmentos. Una-os aos nossos sonhos, aos nossos fatos, desejos e sensações. Guarde. Aguarde.
São flores, amores, sabores e fixações. São histórias, sem hora, embora nem tudo esteja ao nosso favor. Esqueça a dor, exalte o amor. Rimas perfeitas e sincronias avassaladoras.
Quem precisa entender, senão apenas nós dois? Agarre-se às notas. Guarde-se e aguarde o tempo passar. Para que pressa? Rebusque-se.
Sinta, agora, o estopim. Sinta, agora, o que há em mim. Deixe-me, então, mergulhar o mais profundo possível no seu coração. Vasculhar seus sentimentos e transbordar emoção. Levitar no nosso som, na nossa voz. Vamos usar o tom para uma pintura. Desenhar, dar formato, cor e até sabor ao que se passa, ao que se ouve, ao que se cheira, ao que se sente.
Sem pressa, amor. Sem pressa. Olhe para frente, veja no horizonte distante e infinito o tempo que ainda temos juntos. Aproveite os detalhes. Sinta, aqui, toda a magia do que se passa nas letras. É hoje e será amanhã... Nossa união, ao som da nossa música, soará como amor, com o nosso sabor. Sinta. Apenas sinta.

Viagem

   E lá se foi, com destino e rumo certos. Inspiração no ponto. Foi-se com pressa, com saudade e com ternura. Foi sem medo. Cheio de certeza. Muralhas, barreiras, pedras, obstáculos, dificuldades... Tanta coisa por enfrentar, e tanta coragem e força para resistir. Sol, chuva, céu, chão. De que importa o tempo e o meio?

                E lá se foi, sozinho, cheio de pressa, cheio de desejo. Foi-se veloz.

            Numa ponte frágil, num solo firme, sobre o asfalto e sob o céu. Foi-se descalço, completamente desnudo, mas vestido dos mais puros e sinceros sentimentos. Abusando das mais absurdas expectativas, com a certeza de que o elo entre o utópico e a realização é facilmente percorrido. Aproveitou o que pode, transformou o que viu. Do caminho, tirou as inspirações mais apaixonantes e as mais belas palavras. Formou consigo frases cheias de efeitos. Ansiedade para declama-las.

           Em verso ou prosa, ali estava ele, de corpo e alma, pronto para cumprir seu destino. Como orientado, chegara sem demora, cheio de cor, cheio de verdade.

            E aí chegou. Chegou o que nos une, o que nos aproxima, o que nos torna apenas um. Chegou, para ti, o meu pensamento. Sem limite de intensidade ou intenção, se declara para ti. É seu. Seu. Apenas seu. Toma. Guarda. Repousa e me manda igual. Minha caixinha de veludo vermelho espera por isso. Só por isso. Saber que distância e razão são empecilhos redundantes e desapropriados. São forças insipientes, que insistem em atrapalhar. Tontas! Mal sabem a animosidade que nos dão.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

(Des)Apropriação

Assim como os peixes, as pessoas viajam e navegam mundo afora. Assim como os peixes, flutuam sobre espaços inimagináveis, tornam-se grandes pela grandiosidade do ser. Assim como os peixes, as pessoas vivem em busca do nada, em lugar algum. Vivem sem se preocupar com o que fica pra trás, com o que passou.
Diferente dos peixes, as pessoas não sabem dar a volta, olhar para trás com olhos de quem tenta corrigir os erros. Diferente dos peixes, as pessoas formam grupos pequenos, seletos. Diferente dos peixes, as pessoas esquecem que, para flutuar, algo maior está por trás. Como quem age de forma espontânea para lhe ver voar, flutuar e sentir toda a sensação capaz de sentir.
Se até as piranhas se respeitam, por que não se faz o mesmo entre os homens?
Diferente dos peixes, os “cardumes humanos” não criam forma, mas conceitos e preconceitos e ideologias errôneas e difamadoras. Ainda assim, iguais aos peixes, as pessoas estão sempre atentas, observam detalhadamente os espaços sociais, tentam se proteger de qualquer forma contra os “predadores”.
Mas se até os tubarões convivem em harmonia, por que os homens insistem nas relações de poder?
O fato é que, de uma forma ou de outra, disforme e conforme a situação, os homens se espelham nos peixes de forma incongruente, adaptando a parte ruim, protegendo-se de ataques imaginários e atacando supostos concorrentes. Uma herança como essa, rica e específica, não pode ser tratada como se quer. Porque, diferente dos peixes, os homens não sabem nadar pacificamente, tampouco aproveitar o que lhe é dado. Burramente. Cegamente. Incoerentemente.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Direção firma compromisso com estudantes


Alunos questionam diretor do Campus. (FOTO: Marcio dos Santos)
Alunos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará – Campus Cariri (UFC-Cariri),usaram o espaço de um stand, montado para a Feira das Profissões, para realizar um protesto pela criação da estrutura necessária para a existência do curso. O reitor da Universidade, Jesualdo Farias, visitou o Campus nesta sexta-feira, 23, onde os estudantes explanaram sobre suas necessidades de um ensino de qualidade.
 Os principais problemas enfrentados pelos alunos do curso são a falta de laboratórios para as disciplinas de fotojornalismo, telejornalismo, radiojornalismo, jornalismo impresso e ciberjornalismo, o que compromete a formação dos estudantes do 4º semestre e ameaça persistir no ano de 2012. O problema se estende nos cursos de Engenharia de Materiais, Design de Produtos e Educação Musical.
 Indignados, os alunos do 2º e 4º semestres do Curso de Jornalismo conversaram com o reitor e com o diretor do Campus, Ricardo Ness, expondo as necessidades mais urgentes na unidade do Cariri. Durante a conversa, na presença do Reitor, Ness garantiu o início da 4º etapa do plano de construção da UFC para o mês de outubro, e com entrega prevista nos próximos oito meses. Segundo o mesmo, nesse bloco destinado ao Curso de Jornalismo, estarão todos os laboratórios completos e equipados, de acordo com as necessidades.
Promessas feitas, Reitor e Diretor deixam stand de Jornalismo (FOTO: Marcio dos Santos)






Texto: André Alcantara, Danielle Feitosa e Isaac Macedo.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

É desabafo mesmo

A linha tênue entre a razão e emoção, tantas vezes proclamadas em canções, poemas, crônicas e outros estilos linguísticos, agora paira sobre mim. São dúvidas e mais dúvidas, acrescentadas a um toque mágico de incerteza e insegurança. A única coisa concreta é a pergunta que insiste em martelar meus pensamentos: “O que eu fiz?”.
Largando a hipocrisia de que se eu estiver com a consciência limpa, tudo estará tranquilo, parto do pressuposto de que não há nada pior do que ser julgado e ignorado e esquecido por quem tanto se dava valor, sem ao menos saber a razão disso tudo. É como receber uma sentença de um juiz de direito sem ao menos saber qual crime cometeu. Vai entender!
Vai entender aonde foram parar aqueles anos de diversão e entrega. Vai entender a cabeça de alguém que dizia “Somos inseparáveis”, mas quando é posta à prova, prova o contrário. Vai entender...
            Se você consegue entender tudo isso ou não, eu só sei que os clichês de “só sei que nada sei” e “foi bom enquanto durou” fazem cada vez mais parte deste capítulo da minha vida. Enfim, talvez um fim.

domingo, 11 de setembro de 2011

Abdique

Falaram-me de um mundo ideal, cheio de perspectivas e expectativas. Nele, todos eram felizes, sorriam distraidamente. Os dias eram tranquilos, as tardes eram apaixonantes e as noites, inspiradoras. Insistiram em me contar que, lá, nesse mundo ideal, não havia brigas, calúnias, inveja, desamor e desilusão. Tudo era feito com carinho, compreensão.
A palavra que servia de combustível para aquele mundo era incerta, anômala e singular. De tão perfeito, as horas passavam lentamente, tudo cronometrado, nada a mais, nada a menos. Diversão e aproveitamento para todos. Falaram-me também que os bons – e corriqueiros – momentos eram mecanicamente gravados na memória das pessoas. Bordas de ouro para garantir o charme.
Nada, naquele mundo, era impossível. Tudo era fácil, instantâneo. Nada nem ninguém desagradavam. Todos se respeitavam, ajudavam-se uns aos outros sem qualquer tipo de segunda intenção. Já não havia calendário, desprezavam os compromissos inerentes àquela realidade. Fora feito para ser aproveitado. Initerruptamente.
De pronto, após tanta propaganda, rejeitei a hipótese de querer viver num lugar assim. Que valor poderia haver um lugar no qual tudo era simples, fácil e nada era conquistado pelo próprio suor? Qual o sentido de tudo isso? Onde ficariam os dissabores que tanto nos ajudam a construir quem somos e o objetivarmo-nos no que queremos de verdade?
Mas que ideia absurda é essa? Onde já se viu um lugar tão superficial? Que tipo de ideal é este? Ideal para quem?
Mundo ideal para mim é aquele onde ninguém deva se preocupar com o outro, deixa-lo viver por si só. Os sonhos devem custar caro, aumentando significativamente o valor da conquista. A inspiração deve vir do seco, da solidão, e não somente da perfeição a dois, três, quatro ou quanto quer que seja.
Que os dias passem rápido, as horas, minutos e segundos corram para acompanhar o meu desejo de viver. Que aqueles que desejam atrapalhar o meu caminho, com tanta calma acumulada ou lerdeza aflorada, tratem de me dar passagem. O meu mundo ideal apenas exige o respeito, o amor e a verdadeira amizade.
Ideal é saber aproveitarmos a realidade e sabermos o limite de sonhar com utopias. É capturar os segundos inesquecíveis e libertarmos as vidas aprisionadas. É amar sem medida, é ser quem se é.
Sorrir com o que realmente vale a pena, e não desperdiçar alegria com momentos e pessoas que não mereçam. É voar sem rumo, sem direção, mas ainda assim em busca de um objetivo. Saber saltar as dificuldades e colocar as barreiras diante de si, fazendo com que elas admirem o seu tamanho e sua força.
Viver de utopias, meus caros, é negar que a vida lá fora passa e não volta. É rejeitar que as oportunidades só passam uma vez. É fechar os olhos para a perfeição diante de tanta desgraça.
Aproveitar o hoje, o agora, o sempre. Seja como for. Apenas aproveitar.

Desatenção

O Sol até pode ser maior, mais intenso e mais luminoso, mas a magia que a Lua oferece é ainda mais grandiosa que tudo isso. Exala romantismo, paz, aconchego, sossego. Exala nosso perfume, nossas emoções. Exala-nos.
           Um jardim até pode ser mais bonito, mais cheio de cor e de perfume, mas a cor que uma rosa destaca em meio ao nada, o significado que ela traz consigo, sua simplicidade absoluta e complexa, sua beleza e delicadeza, são ainda mais significante do que tudo isso. Ali está nossa essência, nossa sensatez... ali está nós dois.
          Um poema, com tantas palavras, tantos sentimentos, tanta verdade, tanta dedicação, não consegue superar a verdadeira emoção de uma única palavra que, mesmo sem ser pronunciada, consegue traduzir todo o momento, os planos e pensamentos.
           Amor, diga-me o que pode ser mais grandioso que nós? Diga-me o que pode significar mais que o nosso sentimento? O que, na mais plena consciência alheia, tem mais importância que um ao outro? Aonde foram parar a luz, a magia, o romantismo, o aconchego, a paz e o sossego? O que fizeram com a cor, o perfume, o significado, a simplicidade? Por que temos que nos culpar pelos erros alheios?
            Por que eles dificultam as suas vidas e as nossas? Qual o problema de viver por si, para si?
            Ainda assim, em meio a tanta displicência, a vida passa, sem aviso, sem remorso, e os outros fingem não perceber. Onde está a sensatez deles agora? Mas que falso moralismo é este?
            É, amor, em meio a tudo isso, a tanta guerra lá fora, tanta tristeza e desamor, a única coisa que posso dizer é que tenho orgulho de te ter comigo, de saber que nossa vida nos basta, e ter pena deles.
            Mas, sem mais, por quê?

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

09 S.

Descontentamento é, de longe, a palavra que melhor define a infinita significância da decepção. Em suma, é quando os seus sentimentos são tratados como algo tolo, do tipo desprezível e rejeitável. É como se os esforços fossem para o chão, arremessados numa velocidade que, somada à força gravitacional e à massa, despedaça por inteiro tudo aquilo que se sente.
Ainda assim, de forma surreal e inexplicável, nada diminui. A compreensão se apodera, mesmo quando não se é compreendido. A dor e o descontentamento ficam, mas a calmaria trazida pelo sentimento verdadeiro é maior, mais eficaz e vale a pena.
É tratado como besteira e tolice quando se sente trocado. Por mais que seja procurada, a compreensão se desvanece, sem ao menos dar às caras. E aí a confusão se forma, de tão taxado, você não sabe se é certo ou é mais um “escândalo desnecessário”.
Em meio a tanta tormenta, uma data especial teria a missão de desfazer toda a adrenalina e coisa e tal. Em vão. Não basta ser trocado por quem mais se quer, tem que ser ignorado por quem mais se quis. Mas, e aí, onde esteve tanta cumplicidade, tantas promessas e histórias falsas de que tudo seria eterno, passasse o tempo que passasse.
Asas quebradas, inutilizadas e desvalorizadas. A rejeição do próprio eu. Confusão, alarde, balbúrdia e sinônimos afins. Mas, e aí, onde tudo foi parar?
Entre tantos atos, um deles é capaz de incomodar e machucar mais.
Um nada. Um tudo. Silêncio...
A passagem do mais pro menos, mesmo sem ajuda de qualquer ensinamento da matemática. Quem precisa disso na melhor demonstração de positividade e negatividade? Mas, e aí, o que realmente significa tudo isso?
Subjetividade é bem mais que a simples capacidade de nada ser capaz, é também o mistério a fio de tudo. Saber fazer, saber compreender, saber entender... simplesmente saber.
Mas, e aí, fazer o quê?
Olhar pra cima, pra frente, pros lados... Mas e o que passou? Facilmente utilizar uma borracha e fingir que aquela ferida não passou de uma desilusão perdida. Mas, e aí, e aquela história de aprender com os erros?
Mas se já não me resta moral, que ao menos eu possa soltar os balões e enxerga-los voar o mais alto onde minha vista possa alcança-los. É de lá, sem titubear, que as respostas virão.
Mas, e aí, o que resta senão esperar a dor passar? 

Passado imperfeito


Não se trata apenas de um tempo verbal no qual as ações não foram completadas. Mas de toda uma história cujo fim se dissipou no meio do caminho. Cujos planos, de tão cedo pensados, desvaneceram-se em uníssona constante. Trata-se não somente de um futuro perdido, mas de uma vida que deixou de ser conquistada. Trata-se, entretanto, da perda imatura.

O passado imperfeito é bem mais que um tempo acomodado, desiludido e incompleto, é a reflexão necessária para darmos perfeição e qualidade ao presente, para que, no futuro, possa-se olhar para trás e enxergar uma vida repleta de sobriedade e tarefas realizadas, sonhos vividos e desejos saciados.

Bem mais que saciar as vontades, é transformá-las em mais-que-perfeito. Tudo valeu a pena, tudo satisfez como imaginado. Tudo, absolutamente tudo, foi capaz de transbordar os sentimentos de complexidade e simplicidade do interior.

Transformar o passado imperfeito está bem mais dentro do nosso alcance do que se pode imaginar. Aperfeiçoar o passado é dizer “te amo” quando a vontade rompe o peito, é abraçar alguém que precisa de afago nos momentos tristes e felizes, é saber viver como se o amanhã fosse hoje, e tudo que já fora conquistado estivesse sob risco. Aperfeiçoar o passado é decepcionar-se, é rir, é chorar, é viver.
 
Aperfeiçoar o passado é, sem dúvida, a maior missão que se pode ter. É fazer com que o presente se orgulhe e o futuro se espelhe nos erros e acertos do passado.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Ali...

Num cômodo abandonado, num salão de festas. Nas horas completas, nos momentos vagos. Em todas as partes e em parte alguma. Com os olhos fechados e a atenção redobrada.

Nos sonhos, nas sensações, na emoção, no sentimento, nas confusões, no entendimento. Do passado, no presente e no futuro. No sabor da fruta fresca, na mais bela cor do dia-a-dia. Na triste rotina e nos momentos de descontração.

No emaranhado do pensamento. No meu eu. No nós dois.

Enquanto o Sol insistir em brilhar, e a Lua, ao fim do dia, iluminar.

Na poesia, música e sussurros dançantes.

Ali, e tão somente ali, na dimensão do infinito e no além, estará você.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O melhor de si


E quem sabe dizer ao certo o que é dar o melhor de si? Quem define o máximo e o mínimo da história?
O broto desabrochou e, dali, o vermelho mais intenso e bonito surgiu, emergiu. Nasceu. A nuvem se dissipou. Só nos restou o céu brilhante, de cores homogêneas, e sensações em formas totais. Do ar, a pureza mais profunda de uma palavra solta. Presa. Ali. Exatamente naquele contingente de sensações, vibrações e sentimentos, estava o que eu tinha de melhor: o seu melhor.
Perdido em uníssono. Vagando calmamente pelo que nos fora reservado. O que é a pressa e para que ela nos é útil? Aceleraram os ponteiros do relógio, e lá estive eu, à espera do próximo “nós”.
Roubaram de mim o rumo (in)certo. No lugar, deram-me o maior presente.
Alegaram que o possível era imoral. Numa retomada de pensamentos, desfiz a confusão intensa. Refiz as sensações e emoções que, verdadeiramente, compensam. De nós, o único “eu” funciona na primeira pessoa do plural.
Que me desculpem os incrédulos, mas única certeza que se pode ter é a crença de um passado rastejante, presente e futuro emocionante. Todas as respostas se concentraram na simplicidade de tudo o que nos foi complexo.
Que, ao certo, é capaz de dizer que não? Viver o nosso sim é a prova de que remar contra a maré é mais prazeroso do que o imaginado. Aqui estamos nós, à espera do tempo e das decisões. Ali estão eles, a vigiar cada movimento.
Decorar: sentir e guardar. Reservar unicamente aquilo que faz parte. Assim o faço. Contra a inconstância fugaz, tudo aquilo que faz sentido.
O tempo correu lentamente. Pareceu intriga.
Um turbilhão de tudo. De tudo, um turbilhão. Sintamo-nos capazes, e assim o somos. Estamos em meio às apostas, somos as peças-chave. 

Quadrado mágico


Era uma vez um menino tímido e espontâneo, alegre e tristonho, sorridente e melancólico. Contraste. Essa era a palavra que alimentava a vontade de viver, de sorrir, de chorar, de explodir. Em contraste com o mundo além do seu alcance, dormia e acordava numa realidade que não era sua. Suporte. Suportava.
Tinha nas vírgulas a motivação. No ponto final, a decepção.
A música embalava aquilo que era chamado de vida. Os ritmos davam cor aos sentimentos. As tintas davam o sabor aos pressentimentos. Detestava ser invadido pela curiosidade alheia, mas adorava exibir a fantástica auto-estima pretendida. Abusava dos mais puros sorrisos e afundava-se na mais profunda cratera da solidão. Esboçava uma gargalhada encantadora e excitava-se ao conseguir expor a alegria alheia. Recolhia-se no seu “eu”, sem deixar, jamais, que alguém pudesse interromper o contato mais puro e humano que alguém possa ter.
Descompromisso com dia, hora ou qualquer sinal de prisão com o mundo lá fora. Não importa os dados temporais. Lá estava ele, sozinho, diante daquilo que talvez mais lhe significasse. Lá estava ele diante da oportunidade, diante dos comandos. Lá estava ele... À sua frente, um livro grande, pesado, de capa dura, sem qualquer desenho. Incontáveis páginas.
No sumário, a incerteza e as dúvidas mais corriqueiras. Na dedicatória, todo o amor do mundo aos co-autores. Mas chegava a hora de que, com as próprias mãos, a caneta percorresse cada folha em branca daquele livro, daquele destino.
Os pontos, as vírgulas, os travessões, os acentos. Tudo agora dependia do autor. Primeira pessoa. Onisciente, onipresente, mas sem qualquer tipo de poder para prescrever o desenrolar.
Sentado, ali, tão distante e tão só, tão atemporal, tão responsável por si mesmo, o pequeno autor virou a primeira página da sua história, fechou as portas da vida e decidiu que no dia seguinte, quando se sentisse mais bem preparado para a tarefa, faria com que o novo dia, a nova página, fosse mais cheia de cor, de sabores e de prazeres.
Amanhã. Na página seguinte.

De estreia e apresentação interior

Ele corria atrás dos pássaros que descansavam sobre o solo, que buscavam comida para si ou para levar aos ninhos. Ele acenava aos aviões e helicópteros que cruzavam o céu para embarcar naquela viagem. Ele pescava girinos nas fontes das praças públicas e levava para casa, orgulhoso pelos “peixes” adquiridos. Cantava e apresentava seu próprio programa usando palito de picolé como microfone.

Brincava pelas ruas como se flutuasse pelo ar, sem rumo. Corria descalço, pulava alto, alcançando a altura do maior prédio já visto. Paralisava em frente a algum aquário, admirando a leveza do nado dos peixes. Sonhava em poder mergulhar com tubarões, ter a mesma força e respaldo que eles possuíam. Na cidade cenográfica imaginária, atuava como ninguém, e já era possível enxergar-se ganhando prêmios pelo trabalho como ator.

Tempos depois, aprendeu que não conseguiria apanhar os pássaros. Disseram-lhe que ninguém do avião ou helicóptero conseguia lhe enxergar. Os girinos se transformariam em sapo, e não em belos peixes, como pensado. Sua voz não servia para ser um grande, médio ou pequeno cantor. Zombaram, dizendo que ele não levava o menor jeito para apresentador, e que aquela idéia era utópica.

Puxaram seu tapete, quando ele, em trajes de gala, imaginava-se numa festa luxuosa em sua homenagem. “Quanta tolice!”, lançaram os mais experientes. Taxaram-lhe de padre pelo simples fato de ir à missa aos domingos, ainda não ter namorada e não gostar de sair para se divertir.

No mundo inteiro, apenas uma pessoa era capaz de lhe entender. Ela não tinha nome, não tinha sexo, não tinha forma, não existia, mas aplaudia-lhe em todas as “apresentações Vips”.

Fanático por novelas, desenho animado e Power Rangers, era tido como imaturo e manipulado demais pelos entretenimentos midiáticos do dia-a-dia.

Louco, bobalhão, esquisito, chato, fanático e imaturo. Os adjetivos não eram os melhores, tampouco sua realidade.

As condições financeiras eram limitadíssimas, assim como a atenção dos familiares para seus estudos, brincadeiras e sentimentos. Zombado e ignorado, era apenas mais um na árvore genealógica. Tinha o amor incondicional da tia e avó. Pelo menos até que chegasse outro sobrinho e neto para ser totalmente esquecido.

Órfão de pai vivo, contava apenas com a mãe para desabafar e ter em quem se apoiar. Talvez. A timidez e a falta de diálogo prendiam todas as angústias e sofrimentos numa caixinha vermelha trancada a sete chaves: o coração.

Mais em cima, numa caixa cinza, de veludo, depositava o choramingue dos demais. Mesmo na capacidade máxima, sempre dava um jeito para depositar o de mais alguém. A caixa vermelha, revestida pelo frágil papel crepom, também dava sinais de esgotamento. E quem ligava?

Só havia uma saída para tanto desconforto. Ele precisava de um espelho. Olhar suas feições, as curvas que desenham sua face, o tamanho dos olhos, dos lábios, a dimensão do seu olhar. Cada detalhe capaz de revelar o essencial. Mas onde estava o erro?

Anos se passaram, e ele continuou a ser o mesmo, para infelicidade própria.

Os amores platônicos e as decepções amorosas descritos nas letras de suas canções preferidas faziam cada vez mais sentido. Pelo menos nas novelas e filmes que ele havia assistido e nos livros que havia lido, sim.

Assim como a chegada do amadurecimento físico, as pressões externas fizeram-se cada vez mais presentes. Exigiam um mundo que não era dele, uma realidade que jamais desejara. Exigiram. Tiveram.

Apesar do peso aparente, aquela pedra de carne e osso possuía uma leveza responsável por dar sentido a pelo menos quase tudo. Era tudo muito óbvio. Ou não. Como alguém ignorado pode ser óbvio para alguém?

A ficção lhe apresentara um caminho, a vida lhe dera um outro destino, mas a terceira pessoa do plural apontava a direção.

Arrancaram de suas mãos o desejo de voar, o sonho da plenitude de um nado de um peixe, suas múltiplas facetas e um objetivo maior. Arrancaram-lhe de si próprio. Jogaram-no num cantinho qualquer. Sem dó nem piedade. Iludiram-lhe com carinhos e elogios cheios de inverdades. Transformaram sua vida num pesadelo real. E hoje, depois de tanto penar, tudo o que lhe resta é a capacidade de viajar num universo paralelo, onde quem dita as regras e conduz a história é ele mesmo.

Na “vida” real, fora acusado de destruir sonhos, conquistas e perspectivas.

As amizades lhe surgiram na mesma velocidade e intensidade com que desapareceram. Ao primeiro sinal de que alguém no mundo pudesse verdadeiramente lhe fazer feliz, o alívio do possível encontro dava lugar à insegurança e ao ciúme rebelde, fugaz.

Vermelho, verde, azul, amarelo, lilás, rosa, laranja, etc, etc, etc... tudo da mesma cor; sem cor.

Mas ainda assim, acreditando numa possível reviravolta digna de novela do horário nobre, ele levantava a cabeça, olhava para frente e se via numa explosão de felicidade. Bom, nem tão paralelo assim, a tão bem-vinda crença misturava-se ao imaginário perspicaz. Mistério ou não, apenas alguém lhe traria a resposta, mais cedo ou mais tarde. Agora é esperar um novo dia, uma nova história e quem sabe acreditar que a tão sonhada felicidade possa, algum dia, sorrir para ele.

Sendo assim, restava-lhe confiar nas palavras sinceras de um amor repentino e proibido, mas não menos intenso e verdadeiro: “Tudo ficará bem”. Ele, seletivamente, pluralizar-se-ia sem ressentimento, mágoa ou rancor. Nos olhos, no largo sorriso e no doce beijo, o brilho do possível e almejado futuro bom. Que assim seja, sem demora.