Ele corria atrás dos pássaros que descansavam sobre o solo, que buscavam comida para si ou para levar aos ninhos. Ele acenava aos aviões e helicópteros que cruzavam o céu para embarcar naquela viagem. Ele pescava girinos nas fontes das praças públicas e levava para casa, orgulhoso pelos “peixes” adquiridos. Cantava e apresentava seu próprio programa usando palito de picolé como microfone.
Brincava pelas ruas como se flutuasse pelo ar, sem rumo. Corria descalço, pulava alto, alcançando a altura do maior prédio já visto. Paralisava em frente a algum aquário, admirando a leveza do nado dos peixes. Sonhava em poder mergulhar com tubarões, ter a mesma força e respaldo que eles possuíam. Na cidade cenográfica imaginária, atuava como ninguém, e já era possível enxergar-se ganhando prêmios pelo trabalho como ator.
Tempos depois, aprendeu que não conseguiria apanhar os pássaros. Disseram-lhe que ninguém do avião ou helicóptero conseguia lhe enxergar. Os girinos se transformariam em sapo, e não em belos peixes, como pensado. Sua voz não servia para ser um grande, médio ou pequeno cantor. Zombaram, dizendo que ele não levava o menor jeito para apresentador, e que aquela idéia era utópica.
Puxaram seu tapete, quando ele, em trajes de gala, imaginava-se numa festa luxuosa em sua homenagem. “Quanta tolice!”, lançaram os mais experientes. Taxaram-lhe de padre pelo simples fato de ir à missa aos domingos, ainda não ter namorada e não gostar de sair para se divertir.
No mundo inteiro, apenas uma pessoa era capaz de lhe entender. Ela não tinha nome, não tinha sexo, não tinha forma, não existia, mas aplaudia-lhe em todas as “apresentações Vips”.
Fanático por novelas, desenho animado e Power Rangers, era tido como imaturo e manipulado demais pelos entretenimentos midiáticos do dia-a-dia.
Louco, bobalhão, esquisito, chato, fanático e imaturo. Os adjetivos não eram os melhores, tampouco sua realidade.
As condições financeiras eram limitadíssimas, assim como a atenção dos familiares para seus estudos, brincadeiras e sentimentos. Zombado e ignorado, era apenas mais um na árvore genealógica. Tinha o amor incondicional da tia e avó. Pelo menos até que chegasse outro sobrinho e neto para ser totalmente esquecido.
Órfão de pai vivo, contava apenas com a mãe para desabafar e ter em quem se apoiar. Talvez. A timidez e a falta de diálogo prendiam todas as angústias e sofrimentos numa caixinha vermelha trancada a sete chaves: o coração.
Mais em cima, numa caixa cinza, de veludo, depositava o choramingue dos demais. Mesmo na capacidade máxima, sempre dava um jeito para depositar o de mais alguém. A caixa vermelha, revestida pelo frágil papel crepom, também dava sinais de esgotamento. E quem ligava?
Só havia uma saída para tanto desconforto. Ele precisava de um espelho. Olhar suas feições, as curvas que desenham sua face, o tamanho dos olhos, dos lábios, a dimensão do seu olhar. Cada detalhe capaz de revelar o essencial. Mas onde estava o erro?
Anos se passaram, e ele continuou a ser o mesmo, para infelicidade própria.
Os amores platônicos e as decepções amorosas descritos nas letras de suas canções preferidas faziam cada vez mais sentido. Pelo menos nas novelas e filmes que ele havia assistido e nos livros que havia lido, sim.
Assim como a chegada do amadurecimento físico, as pressões externas fizeram-se cada vez mais presentes. Exigiam um mundo que não era dele, uma realidade que jamais desejara. Exigiram. Tiveram.
Apesar do peso aparente, aquela pedra de carne e osso possuía uma leveza responsável por dar sentido a pelo menos quase tudo. Era tudo muito óbvio. Ou não. Como alguém ignorado pode ser óbvio para alguém?
A ficção lhe apresentara um caminho, a vida lhe dera um outro destino, mas a terceira pessoa do plural apontava a direção.
Arrancaram de suas mãos o desejo de voar, o sonho da plenitude de um nado de um peixe, suas múltiplas facetas e um objetivo maior. Arrancaram-lhe de si próprio. Jogaram-no num cantinho qualquer. Sem dó nem piedade. Iludiram-lhe com carinhos e elogios cheios de inverdades. Transformaram sua vida num pesadelo real. E hoje, depois de tanto penar, tudo o que lhe resta é a capacidade de viajar num universo paralelo, onde quem dita as regras e conduz a história é ele mesmo.
Na “vida” real, fora acusado de destruir sonhos, conquistas e perspectivas.
As amizades lhe surgiram na mesma velocidade e intensidade com que desapareceram. Ao primeiro sinal de que alguém no mundo pudesse verdadeiramente lhe fazer feliz, o alívio do possível encontro dava lugar à insegurança e ao ciúme rebelde, fugaz.
Vermelho, verde, azul, amarelo, lilás, rosa, laranja, etc, etc, etc... tudo da mesma cor; sem cor.
Mas ainda assim, acreditando numa possível reviravolta digna de novela do horário nobre, ele levantava a cabeça, olhava para frente e se via numa explosão de felicidade. Bom, nem tão paralelo assim, a tão bem-vinda crença misturava-se ao imaginário perspicaz. Mistério ou não, apenas alguém lhe traria a resposta, mais cedo ou mais tarde. Agora é esperar um novo dia, uma nova história e quem sabe acreditar que a tão sonhada felicidade possa, algum dia, sorrir para ele.
Sendo assim, restava-lhe confiar nas palavras sinceras de um amor repentino e proibido, mas não menos intenso e verdadeiro: “Tudo ficará bem”. Ele, seletivamente, pluralizar-se-ia sem ressentimento, mágoa ou rancor. Nos olhos, no largo sorriso e no doce beijo, o brilho do possível e almejado futuro bom. Que assim seja, sem demora.