segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Quadrado mágico


Era uma vez um menino tímido e espontâneo, alegre e tristonho, sorridente e melancólico. Contraste. Essa era a palavra que alimentava a vontade de viver, de sorrir, de chorar, de explodir. Em contraste com o mundo além do seu alcance, dormia e acordava numa realidade que não era sua. Suporte. Suportava.
Tinha nas vírgulas a motivação. No ponto final, a decepção.
A música embalava aquilo que era chamado de vida. Os ritmos davam cor aos sentimentos. As tintas davam o sabor aos pressentimentos. Detestava ser invadido pela curiosidade alheia, mas adorava exibir a fantástica auto-estima pretendida. Abusava dos mais puros sorrisos e afundava-se na mais profunda cratera da solidão. Esboçava uma gargalhada encantadora e excitava-se ao conseguir expor a alegria alheia. Recolhia-se no seu “eu”, sem deixar, jamais, que alguém pudesse interromper o contato mais puro e humano que alguém possa ter.
Descompromisso com dia, hora ou qualquer sinal de prisão com o mundo lá fora. Não importa os dados temporais. Lá estava ele, sozinho, diante daquilo que talvez mais lhe significasse. Lá estava ele diante da oportunidade, diante dos comandos. Lá estava ele... À sua frente, um livro grande, pesado, de capa dura, sem qualquer desenho. Incontáveis páginas.
No sumário, a incerteza e as dúvidas mais corriqueiras. Na dedicatória, todo o amor do mundo aos co-autores. Mas chegava a hora de que, com as próprias mãos, a caneta percorresse cada folha em branca daquele livro, daquele destino.
Os pontos, as vírgulas, os travessões, os acentos. Tudo agora dependia do autor. Primeira pessoa. Onisciente, onipresente, mas sem qualquer tipo de poder para prescrever o desenrolar.
Sentado, ali, tão distante e tão só, tão atemporal, tão responsável por si mesmo, o pequeno autor virou a primeira página da sua história, fechou as portas da vida e decidiu que no dia seguinte, quando se sentisse mais bem preparado para a tarefa, faria com que o novo dia, a nova página, fosse mais cheia de cor, de sabores e de prazeres.
Amanhã. Na página seguinte.

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