domingo, 27 de novembro de 2011

Protesto / Vandalismo

Independente do partido político, toda e qualquer ação governista da esfera pública, tida como melhoramento da qualidade de vida ou urbanística de determinado local, vem do dinheiro público, obtido através de impostos e taxas elevadíssimas de juros. Destruir ou depredar qualquer tipo de patrimônio público, por exemplo, é mais que uma possível forma de “protesto”, é vandalismo disfarçado.
            
Um exemplo bem característico deste crime está acontecendo em Juazeiro do Norte, no interior do Ceará. Ainda não se sabe a identidade dos autores, tampouco se há algum mandante, e se este está ligado a algum partido político da oposição, o que se sabe, porém, é que as 500 palmeiras plantadas nas principais vias juazeirenses estão sendo cortadas, e placas de publicidade da prefeitura estão sendo danificadas com óleo. A denúncia foi feita pelo prefeito de Juazeiro, o petista Manoel Santana, através do seu perfil no Facebook.
De acordo com a denúncia do prefeito, cerca de 70 palmeiras já foram cortadas, e, junto a elas, parte do dinheiro investido na plantação. “Estamos pedindo a colaboração dos cidadãos de bem de Juazeiro do Norte para que possamos identificar quem são os autores e quem sabe até possível mandante ou quem sabe até mandantes destes atos [sic]”, apelou o prefeito em sua publicação na rede social.
Muito além de palmeiras e placas publicitárias, a população juazeirense precisa estar atenta a todo e qualquer ato de vandalismo na cidade. A depredação dos patrimônios públicos está visível nos bancos das praças, nos telefones públicos, nos monumentos espalhados pela cidade e em vários outros ambientes. Não se trata de uma brincadeira de mau gosto, de protesto ou “intervenção urbana”, trata-se de vandalismo. Trata-se de crime!
De acordo com a Secretaria de Meio Ambiente e Serviços Públicos (Semasp), o investimento para o melhoramento paisagístico das avenidas Padre Cícero e Castelo Branco, com a plantação das mudas de palmeiras da espécie Havaí, conhecidas como mini palmeira imperial, custou cerca de R$ 24 mil ao cofre municipal. Desse total, R$ 3,408, que equivale as 71 palmeiras destruídas, totalizam o prejuízo dos cortes.
Vale lembrar aos criminosos que as penalidades do crime de vandalismo ao corte das palmeiras e danificação das placas, de acordo com o artigo 163 do Código Penal, consiste em detenção de 6 meses a 1 ano, ou multa. Ainda em relação às plantas, o ato também consiste em crime ambiental, cuja penalidade varia em ser restritiva do direito ou privativa de liberdade.

Do Norte

Imagine o quanto se gasta para a realização de um plebiscito. Seja de cunho nacional, estadual ou municipal. Imagine a quantia gasta nas campanhas, na logística, segurança, transporte e apuração das urnas. Imaginou? Pois bem, o plebiscito é uma forma interessante e bastante democrática de avaliar o desejo da população sobre determinada questão. O que não agrada, entretanto, é quando questões como mudar o nome de Juazeiro do Norte para Juazeiro do Padre Cícero entram em questão.

Falta de criatividade ou fanatismo exagerado, o que se vê em Juazeiro do Norte é a quantidade absurda de “homenagens” àquele que fundou a segunda cidade mais importante do Ceará. Muito se deve ao Padre Cícero pelo crescimento e reconhecimento de Juazeiro, mas partir para o ridículo de querer mudar até o nome da cidade para prestigiar o “padim”, chega a ser abusivo.

O projeto de mudança do nome partiu da ONG juazeirense Anjos Solidários. O que irrita, neste caso, é que, enquanto se preocupam em mobilizar toda a cidade para aderirem à ideia absurda, crianças, adultos e idosos sofrem com a miserabilidade que lhes assomam. É bem verdade que a ONG também faz por esses cidadãos desfavorecidos, mas também é verdade que mudar o foco de ajuda para uma campanha tão insignificante é revoltante.

E não é partindo do princípio do dinheiro que eles gastam para promover “Juazeiro do Padre Cícero”, mas sim o dinheiro que a população gastaria para realizar um plebiscito que não acrescentaria em nada à cidade. Já imaginou o quanto de pessoas carentes, que vivem em miséria plena, se beneficiariam com o investimento do dinheiro gasto no possível plebiscito? Não resolveria por completo, mas já seria um passo dado.

O pior é que a inutilidade do projeto não para por aí. Para garantir a realização da consulta opinativa dos juazeirenses, será necessário gastar o pouco tempo de trabalho da câmara de vereadores de Juazeiro do Norte, afim de que os representantes do município possam votar na possível execução projeto. Tempo este que poderia ser gasto na aprovação de leis que trouxessem maior qualidade de vida para a população, por exemplo.

Padre Cícero que me desculpe, mas esta cidade não foi nem nunca será dele. Antes da sua chegada, ainda batizada como Tabuleiro Grande, Juazeiro do Norte já existia. As homenagens que o município poderia lhe dar já foram feitas através de nomes de avenidas, pontos comerciais, e até mesmo com a construção do terceiro maior monumento em concreto armado do mundo. Juazeiro é bem mais que a cidade do suposto padre milagreiro, Juazeiro tem história e autonomia suficiente para ser apenas “do Norte”.

sábado, 26 de novembro de 2011

Ponto

Eu até poderia me sentir mais vivo, se não destruísse os sentimentos alheios. Poderia me sentir mais vivo, se não matasse um pouco de mim a cada instante. Poderia me sentir mais vivo, se eu não estivesse tão ocupado em não perder tempo comigo mesmo. Passei a ser o tipo de parasita que suga e fere como quem beija e abraça. E tudo o que eu pressentia era ser especial.

Enquanto respirar era sacrilégio, a vida tratava de lhe dar as lições mais jurássicas que houvera de existir. Na mentalidade, a infâmia de já não pensar, desistir de si mesmo era a pior derrota já sofrida. Das piores espécies às mais tranquilas. Viver era de uma inutilidade sem limite.

Sem drama, sem lágrima e com cabeça erguida... Viver a vida de participação especial, contentando-se com o que sufoca. Assim, sem mais.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Saudade

Se até o feitiço cai por cima do feiticeiro, o desejo que eu senti ontem recaiu sobre mim. Hoje foi como um daqueles dias que começa diferente. Tudo diferente. À noite, por fim e por mim, tudo terminaria da forma mais tranquila. Valeria a pena ter vivido o dia de hoje. Valeria a pena ter vivido. Valeria?
Hoje é também um daqueles dias em que paro para pensar se faço por bem e pro bem. Ao passo que me sinto mais certo, sinto-me menos necessário. Qualquer “não” é um alvoroço perturbador. E tudo o que eu queria era me sentir mais agradável. Tudo o que eu queria era ser mais agradado. Até que ponto as barreiras do outro não são as suas próprias? Até que ponto se pode ou se quer mudar pelo outro? Até que ponto as perguntas fervilharão à mente?
E toda a dramaticidade volta a atormentar...
É aí que está a minha válvula de escape. Sofrer por antecipação e sofrer mentalmente. Já perdi a conta de quantas vezes a palavra suicídio perturbou meus sentidos e sentimentos. Não cabe nas mãos a quantidade em que a invalidade valeria mais que eu. De tanto reclama e de tanto faz. Ali, desfocado, valorizado pelo uníssono desprezo. Sentir para quê? Qual a valia?
Em postes, em árvores, em diferentes formas. Ali estaria eu, já não estando mais em lugar algum. Quem sabe, algum dia, a inexistência sufoque de saudade.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Recompor

A mistura perfeita para atitudes impensadas. Ali estava eu, deitado na cama, sonhando baixo. Bem abaixo da terra. Um drama inconsciente com desejo de consciência plena. Os faróis ligados indicavam uma direção finita e o som da buzina estendia-se espaço afora pelo peso que a minha cabeça exercia.
Ali, recostado e inerte, o corpo de um jovem de vinte anos descansava em paz. Na paz que tanto buscou, alcançada despretensiosa e intencionalmente. Num paradoxo mortal e reconfortante. Ali, pousado no infinito, sentia a plenitude de uma vida inteira repassada trás sonhos, perspectivas e desilusões. Como todo ser humano, enchera-se de dor e alegria.
Naquela barreira indestrutível, deixou escapar o controle do seu corpo e da sua alma. Entregue, a vida já não fazia sentido há tempos. Mas ali, eternamente ali, seria lembrado pelo trágico fim que seu destino tomara. Na última parada, sequer a chance de encontra-se consigo próprio.
Transpassado de agonia, a certeza de que os olhos abertos já denunciavam a chance de uma retomada espetacular.

sábado, 5 de novembro de 2011

Mais de cem motivos para não comemorar o centenário

Cercada de misticismo, Juazeiro do Norte nasceu e cresceu sob a proteção do seu fundador, primeiro vigário e primeiro prefeito: Padre Cícero. Cem anos após a independência política da vizinha cidade do Crato, a capital nordestina da fé está entre as cidades mais importantes do Brasil e do Nordeste, sendo, ainda, a segunda mais importante do Ceará, e a mais importante da região do Cariri.
Vindos de fora, romeiros de todo o Nordeste brasileiro celebram a vida e morte do conselheiro do sertão. Vindos de longe, brasileiros e estrangeiros dedicam-se a estudar e compreender o fenômeno religioso, econômico e social presente na cidade erguida com preceitos de fé, religiosidade e cultura popular. São mais de 250 mil habitantes, segundo dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), vivenciando toda a dinâmica local. Numa eterna conciliação entre o passado, o presente e o futuro, Juazeiro alia desenvolvimento e futurismo ao caráter provinciano de uma cidade do interior cearense.
Milhões de motivos, dentre eles o fato de ser filho desta terra e afilhado do seu patriarca, e por isso, aqui vai uma pequena homenagem aos cem anos do maior centro de religiosidade popular da América Latina.
O segundo maior destino de turismo religioso do país merece atenção não somente pela bela história conquistada em tão pouco tempo de existência, tampouco pelos belos status conquistados durante este tempo, mas pelos problemas comuns e específicos que parecem ser esquecidos pela sociedade, em especial, a juazeirense.
Com toda essa pose de supercidade, Juazeiro do Norte enfrenta problemas sociais como toda cidade brasileira. A população e o poder público gabam-se dos números e dos depoimentos positivos que maquiam as dificuldades e as vergonhas que nela existem.
A criminalidade, assim como o desenvolvimento desordenado, tem crescido de forma assustadora. Mas, ao contrário do urbanismo e construções civis, o crime tem estado mais bem organizado, superando, de maneira eficaz, o combate irrisório das autoridades competentes. Ainda assim, julgar prefeitura e polícia, por mais que seja o caminho mais prático, é insuficiente para resolvermos esta questão. Incluo-me na condição de juazeirense, como um dos responsáveis por esta problemática. Até quando fingiremos não ver que crianças e adolescentes “cheiram cola” nos semáforos de entrada e saída da cidade, por exemplo? Até quando as ONGs locais se preocuparão mais com a possibilidade da mudança de nome da cidade para o envergonhoso e fanático “Juazeiro do Padre Cícero”, do que com os pequenos protagonistas do nosso futuro que estão à mercê de uma sociedade hipócrita?
Não, meus caros. Não está nada bem por aqui. Não temos tantos motivos para comemorar os nossos cem anos de emancipação política. Os números fantasiados de boas notícias nem sempre ajudam a combater as problemáticas locais, muito pelo contrário.
Fingir que ficou tudo bem, só porque a praça localizada na entrada da cidade ficou bonita, porque palmeiras enfeitam as principais ruas e porque o nosso principal cartão-postal, a estátua de Padre Cícero, foi restaurada, é mais que canalhice por parte da população, é uma forma idiota de assinar atestado de burrice.
Para onde foram parar as acusações de corrupção na prefeitura? Prefeito e vice, presidente da câmara de deputados e vereadores envolvidos, constantemente, em escândalos de falcatruas, desvio de verbas públicas entre outras atrocidades. Memória curta e burrice, brasileiros, são características completamente diferentes.
Agora, você que mora, conhece ou visita frequentemente a cidade de Juazeiro do Norte pode, finalmente, após lembrar e discutir algumas das questões aqui colocadas, dar felicidades ou não para os cem anos da cidade que concilia progresso à regressão como poucas o fazem.