sábado, 5 de novembro de 2011

Mais de cem motivos para não comemorar o centenário

Cercada de misticismo, Juazeiro do Norte nasceu e cresceu sob a proteção do seu fundador, primeiro vigário e primeiro prefeito: Padre Cícero. Cem anos após a independência política da vizinha cidade do Crato, a capital nordestina da fé está entre as cidades mais importantes do Brasil e do Nordeste, sendo, ainda, a segunda mais importante do Ceará, e a mais importante da região do Cariri.
Vindos de fora, romeiros de todo o Nordeste brasileiro celebram a vida e morte do conselheiro do sertão. Vindos de longe, brasileiros e estrangeiros dedicam-se a estudar e compreender o fenômeno religioso, econômico e social presente na cidade erguida com preceitos de fé, religiosidade e cultura popular. São mais de 250 mil habitantes, segundo dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), vivenciando toda a dinâmica local. Numa eterna conciliação entre o passado, o presente e o futuro, Juazeiro alia desenvolvimento e futurismo ao caráter provinciano de uma cidade do interior cearense.
Milhões de motivos, dentre eles o fato de ser filho desta terra e afilhado do seu patriarca, e por isso, aqui vai uma pequena homenagem aos cem anos do maior centro de religiosidade popular da América Latina.
O segundo maior destino de turismo religioso do país merece atenção não somente pela bela história conquistada em tão pouco tempo de existência, tampouco pelos belos status conquistados durante este tempo, mas pelos problemas comuns e específicos que parecem ser esquecidos pela sociedade, em especial, a juazeirense.
Com toda essa pose de supercidade, Juazeiro do Norte enfrenta problemas sociais como toda cidade brasileira. A população e o poder público gabam-se dos números e dos depoimentos positivos que maquiam as dificuldades e as vergonhas que nela existem.
A criminalidade, assim como o desenvolvimento desordenado, tem crescido de forma assustadora. Mas, ao contrário do urbanismo e construções civis, o crime tem estado mais bem organizado, superando, de maneira eficaz, o combate irrisório das autoridades competentes. Ainda assim, julgar prefeitura e polícia, por mais que seja o caminho mais prático, é insuficiente para resolvermos esta questão. Incluo-me na condição de juazeirense, como um dos responsáveis por esta problemática. Até quando fingiremos não ver que crianças e adolescentes “cheiram cola” nos semáforos de entrada e saída da cidade, por exemplo? Até quando as ONGs locais se preocuparão mais com a possibilidade da mudança de nome da cidade para o envergonhoso e fanático “Juazeiro do Padre Cícero”, do que com os pequenos protagonistas do nosso futuro que estão à mercê de uma sociedade hipócrita?
Não, meus caros. Não está nada bem por aqui. Não temos tantos motivos para comemorar os nossos cem anos de emancipação política. Os números fantasiados de boas notícias nem sempre ajudam a combater as problemáticas locais, muito pelo contrário.
Fingir que ficou tudo bem, só porque a praça localizada na entrada da cidade ficou bonita, porque palmeiras enfeitam as principais ruas e porque o nosso principal cartão-postal, a estátua de Padre Cícero, foi restaurada, é mais que canalhice por parte da população, é uma forma idiota de assinar atestado de burrice.
Para onde foram parar as acusações de corrupção na prefeitura? Prefeito e vice, presidente da câmara de deputados e vereadores envolvidos, constantemente, em escândalos de falcatruas, desvio de verbas públicas entre outras atrocidades. Memória curta e burrice, brasileiros, são características completamente diferentes.
Agora, você que mora, conhece ou visita frequentemente a cidade de Juazeiro do Norte pode, finalmente, após lembrar e discutir algumas das questões aqui colocadas, dar felicidades ou não para os cem anos da cidade que concilia progresso à regressão como poucas o fazem.

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