quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Sem chão

Saiu. Soltou a bomba e saiu. Despejou o veneno sob meus braços, aturdindo-me. Agora, desnorteada, faço caso do mundo lá fora. Que se explodam! O conteúdo do envelope dizia bem. Traduzia todos aqueles momentos em que seus olhares fixos e tenebrosos agarravam-me pela perna. Tudo agora fazia sentido, embora sentido não fosse o sentimento exato. Calafrios, cada vez mais frequentes, anunciavam o que estava por vir. Ou o que estava por ir.
Sentada, mas ainda sentindo o chão se abrindo sob meus pés. Aquela palavra... Não consigo sequer pensar naquela palavra, ou em todas as outras palavras subsequentes que passo a esperar. O que seria do futuro? Do meu futuro. Há três semanas completei meus vinte anos de idade. Sempre esperei que a felicidade da data se alongasse por tempos e tempos. Mas desde dias antes eu já não tinha o que comemorar. Quanta desgraça para uma só vida! Por que logo na minha vida?
Ele voltou com o copo de água, agindo como se nada houvesse acontecido. Com sua voz serena e detestável. Talvez usasse deste artifício para acalmar-me. Mal sabia que estava me dando nos nervos! Agora, uma vontade enlouquecedora de explodir junto com o mundo lá fora.
– Calma. – ponderou. – Respire fundo.
Calma, meu senhor? Calma? Respirar para quê? A vontade que eu tenho agora é de definhar sob o destino que me foi reservado. Destino... Em pensar que cheguei a acreditar que quem o escrevia fôssemos nós. Eu jamais escreveria tão triste fim. Jamais escreveria tão triste capítulo para a minha história. “Calma”. Calma. Calma. Calma. É tudo o que tens para me dizer agora? E agora, cadê sua maestria? Como eu posso manter-me calma nessas condições?
Vinte anos. Vinte anos recém-completos e uma vida ameaçada, por um triz. Esta sou eu, morrendo aos poucos e cada vez mais, em queda livre, desde hoje, desde agora. Sou Mariana Arraes, tenho 20 anos e uma “laranja cancerígena” na cabeça.

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