domingo, 11 de setembro de 2011

Abdique

Falaram-me de um mundo ideal, cheio de perspectivas e expectativas. Nele, todos eram felizes, sorriam distraidamente. Os dias eram tranquilos, as tardes eram apaixonantes e as noites, inspiradoras. Insistiram em me contar que, lá, nesse mundo ideal, não havia brigas, calúnias, inveja, desamor e desilusão. Tudo era feito com carinho, compreensão.
A palavra que servia de combustível para aquele mundo era incerta, anômala e singular. De tão perfeito, as horas passavam lentamente, tudo cronometrado, nada a mais, nada a menos. Diversão e aproveitamento para todos. Falaram-me também que os bons – e corriqueiros – momentos eram mecanicamente gravados na memória das pessoas. Bordas de ouro para garantir o charme.
Nada, naquele mundo, era impossível. Tudo era fácil, instantâneo. Nada nem ninguém desagradavam. Todos se respeitavam, ajudavam-se uns aos outros sem qualquer tipo de segunda intenção. Já não havia calendário, desprezavam os compromissos inerentes àquela realidade. Fora feito para ser aproveitado. Initerruptamente.
De pronto, após tanta propaganda, rejeitei a hipótese de querer viver num lugar assim. Que valor poderia haver um lugar no qual tudo era simples, fácil e nada era conquistado pelo próprio suor? Qual o sentido de tudo isso? Onde ficariam os dissabores que tanto nos ajudam a construir quem somos e o objetivarmo-nos no que queremos de verdade?
Mas que ideia absurda é essa? Onde já se viu um lugar tão superficial? Que tipo de ideal é este? Ideal para quem?
Mundo ideal para mim é aquele onde ninguém deva se preocupar com o outro, deixa-lo viver por si só. Os sonhos devem custar caro, aumentando significativamente o valor da conquista. A inspiração deve vir do seco, da solidão, e não somente da perfeição a dois, três, quatro ou quanto quer que seja.
Que os dias passem rápido, as horas, minutos e segundos corram para acompanhar o meu desejo de viver. Que aqueles que desejam atrapalhar o meu caminho, com tanta calma acumulada ou lerdeza aflorada, tratem de me dar passagem. O meu mundo ideal apenas exige o respeito, o amor e a verdadeira amizade.
Ideal é saber aproveitarmos a realidade e sabermos o limite de sonhar com utopias. É capturar os segundos inesquecíveis e libertarmos as vidas aprisionadas. É amar sem medida, é ser quem se é.
Sorrir com o que realmente vale a pena, e não desperdiçar alegria com momentos e pessoas que não mereçam. É voar sem rumo, sem direção, mas ainda assim em busca de um objetivo. Saber saltar as dificuldades e colocar as barreiras diante de si, fazendo com que elas admirem o seu tamanho e sua força.
Viver de utopias, meus caros, é negar que a vida lá fora passa e não volta. É rejeitar que as oportunidades só passam uma vez. É fechar os olhos para a perfeição diante de tanta desgraça.
Aproveitar o hoje, o agora, o sempre. Seja como for. Apenas aproveitar.

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